04 outubro 2006
Falta-me descobrir
Cada vez que olho para esta complicação toda a funcionar, o “Tag Huere” que tritura impiedoso os segundos que passam, o escape que nos sufoca, o sound-byte que nos confunde, o bulício que nos domina, lembro-me da carta do Chefe Seattle da tribo Duwamish ao Grande Chefe de Washington e das deduções do Chefe Tuiavii de Samoa nos mares do Sul. Lembro-me, releio passagens e sorrio. Falta-me descobrir o sentido desse sorriso.

“As flores perfumadas são nossas irmãs; o veado, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, as seivas das pradarias, o calor que emana do corpo de um pónei e o próprio homem, todos pertencem à mesma família.
(…)
As vossas cidades ferem os olhos do homem de pele vermelha. Não há lugares calmos nas cidades do homem branco. Não há sítios onde se possa ouvir as folhas a desabrochar na primavera ou o zunir das asas dos insectos. O barulho que tudo domina ofende os ouvidos do homem de pele vermelha. Para que serve a vida se um homem não pode escutar o grito solitário do noitibó ou a lengalenga nocturna das rãs à volta de um pântano ? Sou um homem de pele vermelha e não compreendo, talvez porque os homens de pele vermelha são selvagens e ignorantes. O índio prefere o suave sussurro do vento roçando a superfície de uma lagoa e o perfume do ar lavado pela chuva do meio-dia ou carregado do aroma dos pinheiros.”
Chefe Seattle in carta a Franklin Pierce, Presidente dos EUA (1854)

«É difícil para Papalagui (Homem Branco) não pensar. É difícil viver com todas as partes do corpo ao mesmo tempo. É comum ele viver só com a cabeça enquanto todos sentidos dormem profundamente. ...Por exemplo, quando o belo sol brilha, o Papalagui (Homem Branco) pensa imediatamente: "Como o sol brilha agora, que beleza!" E continua pensando: "Como o sol está brilhando, como está bonito!" Isto está errado, inteiramente errado, absurdo, porque o melhor é não pensar em nada quando o sol brilha. O Samoano inteligente estira os membros à luz quente do sol e não pensa em nada. Ele recebe o sol tanto com a cabeça quanto com as mãos, os pés, as coxas, a barriga, todas as partes do corpo. Ele deixa que a pele e os membros pensem por si; e certamente eles também pensam de uma forma diferente da cabeça. ...Pensa em coisas alegres, é certo, mas sem sorrir; pensa certamente em coisas tristes, mas sem chorar. ...O Papalagui (Homem Branco) quase sempre vive em combate perpétuo entre sentidos e seu espírito; ele é um homem dividido em dois pedaços.»
Chefe Tuiavii in Papalagui (1920)
 
posted by José at 13:07 | Permalink |


2 Comments:


  • At 6/10/06 20:09, Blogger Cristina

    olá Papalagui (digo eu, sei lá...)
    adoro este texto.é esse o segredo da felicidade, saber regredir ao basico, aos sentidos.

    vim deixar-te um beijo. bom fim de semana.

     
  • At 7/10/06 12:36, Blogger Luís

    Li o teu post e deu-me vontade ir correr para uma mata que existe perto de minha casa. Vou sair. Mas voltarei a este espaço.


    Um abraço